Olímpiadas e paraolimpíadas durante à pandemia

O desastre sanitário de proporções históricas, a pandemia de Covid-19 não se configurou somente como uma crise humanitária, afetando o mundo inteiro e levando a óbito milhões de pessoas. O espalhamento do coronavírus é, também, um problema econômico e social, que impediu desde reuniões familiares simples até megaeventos. Um destes foram as olímpiadas e paraolimpíadas de Verão.

Programados para julho e agosto de 2020, em Tóquio, capital do Japão, os jogos foram adiados por conta da falta de segurança sanitária em escala global dado o alto número de casos e mortes em decorrência da Covid-19. Desta forma, o universo do esporte de alto rendimento sofreu impactos severos, afetando seus mais diversos segmentos: atletas, empresários, organizadores, treinadores e, entre outros, médicos e profissionais da Saúde.

Realizados entre 23 de julho e 8 de agosto de 2021, as olímpiadas e paraolimpíadas, de 24 de agosto a 5 de setembro, ainda permanecem rodeados de polêmicas. Nas três semanas que antecederam a cerimônia
de abertura, Tóquio passou do registro de cerca de 800 casos diários de Covid-19 para o patamar de 3.000 notificações ao dia. Com um controle frouxo de aglomerações e protocolos, os jogos, as férias de verão e
a variante delta, muitos japoneses temem que, após algum tempo do fim do evento, o país entre uma fase grave da pandemia.

Controle
Sobre o aumento de casos em Tóquio, Ana Paula Simões, presidente da Sociedade Paulista de Medicina Desportiva (Spamde), não entende que é possível atribuir a responsabilidade às olimpíadas e paraolimpíadas. “Já víamos, dois meses antes dos jogos, o aumento de casos no Japão. Até por isso resolveram não permitir público nas arenas.” A presidente da Spamde acredita que tenha sido feito um trabalho adequado de controle da pandemia e dos protocolos sanitários entre os atletas, treinadores, membros do staff etc. “Observamos o uso de máscara, o distanciamento e a utilização de álcool em gel, o que, provavelmente, ainda faremos por muitos anos. Tenho visto algum acúmulo de pessoas durante as refeições, mas ao menos há uma placa de separação que não permite que comam juntas.”

Ela ainda ressalta que, por mais que os médicos estudem, leiam trabalhos, pesquisem muito, tudo relacionado à Covid-19 é muito novo, sendo absorvido dia a dia, de acordo com as atualizações.
De todo modo, a professora da Santa Casa de São Paulo crê que é fundamental que atletas e comissões técnicas mantenham as normativas que estão sendo aplicadas durante às olímpiadas e paraolimpíadas, com distanciamento, precaução e sem contato físico , o que, para ela, é e será por muito tempo o “novo normal”. “Nós, brasileiros e latinos, queremos abraçar e cumprimentar sempre, mas temos que aprender algo com os orientais. Aprendermos a manter o distanciamento, a manter mãos limpas e higienizadas. Acho que estamos
aprendendo. Além disso, outra coisa que veio para ficar são as reuniões virtuais, inclusive treinamentos e orientações. Acho que isso será mantido no esporte, sobretudo na parte administrativa”, complementa.

Impactos nos atletas
Durante o ciclo olímpico, muitos atletas foram infectados pelo coronavírus, mas quase todos passaram por casos simples ou assintomáticos, segundo Ana Paula. “A recuperação, entre atletas, é igual a dos não-atletas. Vai depender do grau da infecção. Mas o fato de eles possuírem melhor condicionamento e sistemas cardiorrespiratório e imune mais ativos ajuda na recuperação. Além disso, também têm um acesso a médicos que a população normal não tem, geralmente a um profissional da equipe que coordena e auxilia no cuidado”, explica a especialista.

Para a especialista em Medicina Desportiva, a mentalidade esportiva é outro elemento que favorece a recuperação de um atleta com Covid-19. “Eles possuem um mindset diferente. O sistema cerebral deles
está programado para potencializar positividade e recuperação. Tudo tem de dar certo, pois eles têm objetivos e provas a serem cumpridas.”

Sobre o risco ventilado de que a infecção pelo coronavírus possa trazer complicações posteriores, ela, que é também mestre em Ortopedia e Traumatologia, entende que ainda não é possível tomar conclusões, mas comenta alguns pontos de preocupação. “Vamos ver como está a musculatura dos atletas. A gente sabe que o vírus gosta de se acoplar nos receptores musculares e em alguns receptores cardíacos e cerebrais.
Por isso, algumas pessoas ficam com sequelas, perdem a memória e têm dificuldade de concentração.” Segundo Ana Paula Simões, quem teve, durante a Covid-19, mais sintomas de dores musculares
está demorando mais tempo para recuperar a forma física e essa tem sido a principal atenção a médio prazo. “De qualquer forma, atletas que foram infectados e ficaram com o sistema musculoesquelético – a parte que mais os afeta – debilitado têm realizado fortalecimentos mais intensos,
acompanhados de vitaminas, para acelerar a recuperação.”

De maneira geral, para a presidente da Spamde, a pandemia afetou muito a preparação dos atletas. Isso porque vários deles não tiveram acesso às pistas de atletismo, às piscinas e aos centros de treinamento – o que, certamente, afetou as classificações. Quem teve Covid-19 também lidou com os impactos da ausência de treinamento e do tempo de afastamento(normalmente de 15 a 20 dias).

“O destreino – processo em que você perde a condição física – acaba sendo muito ruim. Quando o atleta fica parado, perde massa e condicionamento em velocidade inversamente proporcional em relação a quando
faz atividade constante”, finaliza.

Veja o artigo na Revista APM

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Dra. Ana Paula Simões
Médica do esporte, ortopedista e traumatologista, professora instrutora e mestre pela Santa Casa de São Paulo, especialista em medicina esportiva e cirurgiã do tornozelo e pé.

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