Impacto Femoroacetabular – A lesão do Andy Murray é igual ao do Guga?

A resolução da dor do quadril do jogador de tênis Andy Murray é motivo de esperança para pacientes no mundo todo e sua recuperação desafia os limites da medicina atual. Acabei de ver sua participação no ATP de Indian Wells, nos Estados Unidos (outubro 2021) e fiquei surpresa em vê-lo jogando tão bem! A doença de Andy Murray se chama impacto femoroacetabular, e é uma síndrome que existe um impacto na articulação do quadril, que é a parte da bacia onde o fêmur se encaixa.

O impacto femoroacetabular é a mesma doença que acometeu nosso maior tenista brasileiro, e hoje vemos que pode evoluir para um desgaste articular quando a superfície entra em processo de degeneração avançado, sendo indicado dependendo do caso sua substituição.

Mas o que vim nesse artigo mostrar a vocês é que pude constatar como a ortopedia é surpreendente, e sua evolução mostra que mesmo em casos semelhantes de lesões separados pelo tempo, podem evoluir de formas diferentes, onde o nosso Gustavo Kuerten teve o desfecho com a aposentadoria. Hoje verificamos que já é possível retornar ao alto rendimento mesmo após o impacto femoroacetabular e uma prótese de quadril.

O fato de uma lesão em um atleta de alto nível ser recuperada tão rapidamente pode até não causar tanta surpresa, porém o caso de Murray era mais grave dado o desgaste acentuado da articulação, decorrente do esporte de alto rendimento além do impacto previamente diagnosticado.

A prótese escolhida foi chamada ressurface ou “resurfacing” (prótese de recapeamento do quadril), e foi colocada em 2019, na Inglaterra, por uma mulher chamada Dra. Sarah Muirhead-Allwood. Andy Murray, teve seu quadril substituído por uma articulação artificial  pela mesma ortopedista que já operou a Rainha Elizabeth e o falecido Príncipe Philip. Pude evidenciar nesta competição que Murray voltou a competir com os melhores do mundo em suas melhores condições físicas.

A técnica cirúrgica de substituição de quadril, criada para tratar casos avançados de artrose, na maioria dos casos, as pessoas sonham apenas em voltar a simplesmente caminhar. Com seu exemplo, Andy Murray inspira os “biônicos”, termo carinhoso que muitos pacientes com prótese de quadril se auto-denominam, a superarem suas dificuldades iniciais e renascerem para uma nova vida após a cirurgia: o esporte!

O simples fato de Murray estar nos EUA e ganhar duas partidas demonstra a determinação mental e física do atleta aliada à precisão da sua ortopedista e sua equipe de reabilitação, feito histórico que representa a perfeita união da engenharia, tecnologia, e, acima de tudo, multidisciplinaridade, pois além disso, precisa de alimentação balanceada e um preparador físico e técnicos cientes das questões protéticas.

Esse tipo de cirurgia é tão importante e revolucionário que foi eleito o procedimento cirúrgico do século, pois é o tratamento médico que tem a maior capacidade de ganho de qualidade de vida e temos o exemplo que já acontece na substituição do joelho, tornozelo, ombro, cotovelo e até dedão do pé! Sim, temos próteses para substituir todas essas articulações mantendo sua mobilidade!

Muitos ortopedistas ficam apreensivos e até criticam a participação em esportes de alto nível e alto impacto para pacientes com articulações  artificiais. Obviamente,  a artificial não é igual a uma natural. Assim como o quadril biológico sofreu um processo degenerativo, o quadril artificial também está sujeito a maiores desgastes com esse tipo de atividade e isso faz com que a vida útil da prótese diminua. 

É possível que a prótese de quadril de Murray dure menos do que implantes realizados em atletas e esportistas com menores demandas ou até mesmo para pessoas normais em termos de volume de atividade física. O Guga por exemplo, parou o alto rendimento e muito provavelmente não precisará de revisão tão cedo.

Talvez carreiras como a do nosso tenista Guga Kuerten poderiam ter sido prolongadas, talvez de um leitor aqui do eu atleta pode ser ajudado! Mas sem dúvida, os procedimentos de artroplastia (substituição de articulações), têm evoluído muito nos últimos anos, e a indicação precisa só pode ser feita pelo ortopedista especialista, pois cada caso é individual. O importante é saber os potenciais riscos e benefícios deste procedimento e escolher um bom médico para discutir suas indicações!

Bons treinos, valentes, e viva a evolução!

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Veja também: Entorses do tornozelo representam mais de 20% das lesões esportivas

Dra. Ana Paula Simões
Médica do esporte, ortopedista e traumatologista, professora instrutora e mestre pela Santa Casa de São Paulo, especialista em medicina esportiva e cirurgiã do tornozelo e pé.

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