Terapia por ondas de choque: como funciona no tratamento de lesões esportivas

A terapia por ondas de choque pode fazer parte do tratamento de algumas condições musculoesqueléticas que causam dor e limitam a prática esportiva. A técnica utiliza pulsos de energia mecânica aplicados sobre uma região específica, sem cortes ou injeções. Sua indicação depende do diagnóstico, da evolução dos sintomas e das evidências disponíveis para cada problema.

Entre as condições em que o recurso pode ser discutido estão a fascite plantar persistente e determinadas tendinopatias. Entretanto, os resultados não são iguais para todas as lesões. Entender como funciona o tratamento, quais benefícios podem ser esperados e como ele se integra à reabilitação ajuda a tomar uma decisão mais consciente.

O que é a terapia por ondas de choque?

A terapia por ondas de choque extracorpóreas utiliza um equipamento que transmite pulsos mecânicos aos tecidos por meio de um aplicador em contato com a pele. Apesar do nome, a pessoa não recebe um choque elétrico. A energia é direcionada à região selecionada após a avaliação do problema.

O tratamento pode influenciar a sensibilidade dolorosa e desencadear respostas biológicas nos tecidos. Existem mecanismos estudados em laboratório, mas essas respostas não permitem afirmar que o procedimento sempre regenera um tendão ou acelera sua recuperação. O benefício clínico precisa ser demonstrado para a condição tratada.

Na prática, o objetivo costuma ser reduzir os sintomas e melhorar a função em situações selecionadas. Isso significa avaliar se a pessoa consegue caminhar melhor, tolerar exercícios ou recuperar atividades que estavam limitadas. Uma mudança no exame de imagem, isoladamente, não comprova sucesso do tratamento.

Antes de indicar o procedimento, é necessário compreender a origem da dor. O tratamento das tendinites, por exemplo, envolve diferentes possibilidades conforme o tendão afetado e as características do quadro. A escolha de um aparelho não substitui essa investigação.

Qual é a diferença entre ondas focais e radiais?

Os equipamentos utilizados nesses tratamentos não produzem estímulos idênticos. As ondas focais concentram energia em uma região determinada, permitindo direcionar a aplicação conforme a profundidade do tecido. Já os aparelhos radiais produzem ondas de pressão que se dispersam a partir do aplicador, com maior intensidade próxima à superfície.

Embora o termo “ondas de choque radiais” seja comum, existem diferenças físicas entre essa modalidade e as ondas focais. Por isso, os resultados de um estudo realizado com determinado equipamento e protocolo não podem ser transferidos automaticamente para qualquer aparelho.

A escolha considera a estrutura tratada, sua profundidade e as evidências disponíveis. Intensidade, número de pulsos e intervalos entre aplicações também fazem parte do planejamento. Mais energia ou mais sessões não significam necessariamente maior benefício e podem aumentar o desconforto.

Para o paciente, a pergunta mais útil é se a modalidade proposta tem indicação para seu diagnóstico. Comparar aparelhos apenas pelo nome comercial, pela potência anunciada ou pela promessa de recuperação rápida pode dificultar uma decisão baseada nas necessidades reais do tratamento.

Para quais lesões esportivas o tratamento pode ser considerado?

A terapia por ondas de choque costuma ser discutida em alguns quadros persistentes, especialmente quando as medidas iniciais não proporcionaram melhora suficiente. Isso não significa que seja necessário esperar a dor se tornar incapacitante, mas que a indicação deve considerar o tratamento já realizado e a qualidade da reabilitação.

Entre as condições em que o recurso pode ser avaliado estão:

  • Fascite plantar persistente, após resposta insuficiente às medidas iniciais.
  • Algumas tendinopatias de Aquiles, considerando a localização e as limitações das evidências.
  • Tendinopatia patelar, em situações selecionadas e associada à discussão sobre resultados incertos.
  • Tendinopatia calcificante do ombro.
  • Outras condições musculoesqueléticas com indicação específica e avaliação individual.

No pé, a técnica pode integrar o tratamento da fascite plantar. Estudos mostram benefícios em determinados contextos, mas o resultado depende do quadro e do protocolo utilizado. O procedimento deve fazer parte de um plano que também considere exercícios, calçados e carga de atividade.

Para a tendinite e tendinopatia de Aquiles, a discussão exige mais cautela: as pesquisas apresentam resultados diferentes, e o benefício adicional não é consistente em todas as comparações. A técnica não deve ser apresentada como solução garantida nem como substituta dos exercícios orientados.

Como é realizada uma sessão?

Antes da aplicação, o profissional identifica a região que será tratada e revisa as condições de saúde relevantes. O posicionamento do paciente depende da estrutura envolvida. Pode ser utilizado gel para facilitar a transmissão da energia entre o aplicador e a pele.

Durante a sessão, o equipamento produz pulsos repetidos, percebidos como pequenas batidas na região. A intensidade é ajustada conforme o protocolo e a tolerância. Pode existir desconforto, principalmente em áreas sensíveis, e o paciente deve informar como está se sentindo durante o procedimento.

A duração e a quantidade de aplicações variam. Alguns protocolos utilizam sessões separadas por intervalos, mas não existe uma sequência universal adequada para todas as lesões. O planejamento deve incluir momentos de reavaliação, em vez de apenas definir um pacote fixo sem acompanhar a resposta.

A dor no calcanhar ao correr, por exemplo, pode ter diferentes causas. Aplicar o tratamento no ponto doloroso sem esclarecer o diagnóstico pode deixar de abordar o problema principal. Por isso, a avaliação vem antes da escolha da região e dos parâmetros.

Quais resultados podem ser esperados?

O benefício esperado costuma envolver redução da dor e melhora da capacidade de realizar atividades. A resposta pode ser gradual e precisa ser acompanhada durante as semanas seguintes. Sentir alívio imediatamente após uma sessão não significa que o tecido já esteja preparado para suportar esforços intensos.

Na fascite plantar, há evidências favoráveis em algumas comparações, inclusive em relação a determinados tratamentos injetáveis. Entretanto, os estudos utilizam diferentes equipamentos, intensidades e critérios de seleção. Esses resultados não permitem prometer a mesma resposta a todas as pessoas.

Nas tendinopatias de Aquiles e patelar, as evidências são mais variáveis. A localização da lesão, o tratamento associado e o grupo usado para comparação influenciam a interpretação. Uma recomendação para fascite plantar não pode ser aplicada automaticamente a um tendão, mesmo quando ambos provocam dor durante a corrida.

Também é importante avaliar resultados concretos. Conseguir caminhar por mais tempo, subir escadas com menos desconforto ou avançar nos exercícios pode indicar melhora. Quando não há benefício suficiente, é necessário revisar o diagnóstico e o plano, em vez de repetir aplicações indefinidamente.

Quais são os riscos e os cuidados necessários?

Dor durante a aplicação, sensibilidade temporária, vermelhidão e pequenos hematomas podem ocorrer. A intensidade dessas reações varia conforme o local e os parâmetros utilizados. Sintomas importantes ou que fogem ao esperado devem ser comunicados à equipe responsável.

As contraindicações dependem da modalidade, da energia e da região tratada. Tumor maligno ou dispositivo eletrônico implantado no campo de aplicação exigem atenção específica. A região de aplicação em gestantes também precisa ser considerada, especialmente quando há possibilidade de exposição do feto.

Distúrbios de coagulação e uso de medicamentos que aumentam o risco de sangramento devem ser informados. Nenhum medicamento deve ser interrompido por conta própria para realizar o procedimento. Suspeita de ruptura tendínea ou de outra lesão aguda importante exige avaliação antes de considerar ondas de choque.

Após a sessão, as orientações precisam respeitar o diagnóstico e a resposta apresentada. Não existe uma regra única de liberação imediata para treinos intensos. O fato de o tratamento dispensar cortes não elimina a necessidade de ajustar a carga e acompanhar os sintomas.

As ondas de choque substituem a fisioterapia ou a cirurgia?

As ondas de choque podem ser um recurso complementar, mas não substituem automaticamente a reabilitação. Força, mobilidade, controle do movimento e tolerância ao esforço precisam ser trabalhados conforme a condição. Melhorar a dor sem recuperar essas capacidades pode deixar limitações relevantes.

Na tendinopatia de Aquiles em corredores, o planejamento envolve exercícios e organização do treinamento. A progressão deve considerar o desconforto durante a atividade e a resposta nas horas seguintes, evitando aumentos bruscos apenas porque houve alívio.

O procedimento também não garante evitar uma cirurgia quando existe indicação bem estabelecida. Algumas pessoas melhoram com medidas conservadoras; outras continuam limitadas e precisam discutir alternativas. A decisão depende da estrutura comprometida, da função e da evolução do quadro.

Se uma lesão está dificultando seus exercícios ou permanece dolorosa apesar do tratamento, procure uma avaliação ortopédica. Identificar a causa e revisar as medidas já realizadas permite entender se as ondas de choque podem contribuir para sua recuperação e como integrá-las a um plano individual.

Leia também: Tendinite e tendinopatia de Aquiles: causas, sintomas e tratamento.

Metadescrição: Entenda como funciona a terapia por ondas de choque, suas indicações para lesões esportivas, os resultados esperados e os cuidados necessários.

 

Dra. Ana Paula Simões
Médica do esporte, ortopedista e traumatologista, professora instrutora e mestre pela Santa Casa de São Paulo, especialista em medicina esportiva e cirurgiã do tornozelo e pé.

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