Morte súbita no esporte e forma de prevenção

Morte súbita no esporte

No último sábado, dia 12 de Junho de 2021, durante uma partida da Euro Copa 2020 entre Dinamarca e Finlândia, ocorreu um caso raro próximo do final do primeiro tempo da partida. O camisa 10 da seleção Dinamarquesa, Christian Eriksen, teve uma morte súbita no esporte abortada graças à excelente intervenção da equipe médica em campo.

Episódios como esse infelizmente acontecem e pode-se citar como principal exemplo, no Brasil, o ex-jogador Serginho. O atleta era o zagueiro  da equipe de futebol Associação Desportiva São Caetano, a qual chegou à uma final de Libertadores da América em 2002, mas infelizmente, em 2004 aos 30 anos de idade, ele veio à falecer subitamente durante uma partida de futebol, devido à uma arritmia cardíaca, decorrente de uma doença chamada Cardiomiopatia Hipertrófica.

Temos um outro caso, mais famoso no mundo, muito inusitado, porém com um final positivo: o ex-jogador Fabrice Muamba, durante uma partida pelo Campeonato Inglês, chegou a cair desacordado em campo, foi levado ao hospital e seu coração ficou parado por cerca de 78 minutos, no entanto, ele sobreviveu à essa possível morte súbita, também originada de uma Cardiomiopatia Hipertrófica. Mas para entender de fato o que essa problemática envolve, precisa-se  entender o que é a Morte Súbita no Esporte.

O que é morte súbita?

Por definição, ela é toda morte inesperada e instantânea que ocorre durante ou até uma hora e meia após o exercício físico, desde que não seja por uma causa violenta (acidente automobilístico, agressão física, entre outras). Os estudos indicam que a sua incidência varia entre 0,1 a 38 habitantes a cada 100 mil por ano, ou seja, realmente é um incidente raro.

As origens da morte súbita no esporte advém de duas formas principais: Cardíacas e Não Cardíacas. Sendo que a primeira é a forma predominante, podendo-se destacar ainda 2 eventos que englobam três quartos dos casos pela forma Cardíaca: a Cardiomiopatia Hipertrófica e a Doença Arterial Coronariana, que afetam principalmente atletas abaixo de 35 anos e acima de 35 anos, respectivamente.

O exato motivo do ocorrido com o atleta Christian Eriksen, de 29 anos, ainda é desconhecido, no entanto, a principal suspeita é de uma Cardiomiopatia Hipertrófica devido aos fatores epidemiológicos.

Essa enfermidade é  ligada à fatores genéticos, que provocam uma desorganização e hipertrofia das  fibras do miocárdio (músculo do coração), uma proliferação de tecido fibroso no tecido (sem funcionalidade) e uma diminuição da luz das artérias coronárias intramurais.

A forma mais comum de Cardiomiopatia Hipertrófica é a Hipertrofia Assimétrica do Septo Interventricular (75% dos casos). Essas alterações provocam um déficit no relaxamento ventricular, uma obstrução de saída de sangue do ventrículo esquerdo, uma regurgitação da válvula mitral, e posteriormente, uma isquemia miocárdica e arritmias cardíacas.

Já a Doença Arterial Coronariana, tem início a partir de uma lesão no endotélio (revestimento dos vasos sanguíneos), que pode ser causada por um aumento do LDL (colesterol ¨ruim¨), pela Hipertensão Arterial Sistêmica, pelo Diabetes ou pelo Tabagismo.

Estas alterações, torna o atleta predisposto à retenção de gorduras circulantes no sangue, acarretando em formação de placas de ateroma (composta de gorduras, neutrófilos, células mortas, entre outros). Podendo seguir por 2 caminhos: Ela pode se soltar, se tornando um êmbolo e gerando uma embolia, obstruindo um vaso de calibre inferior; Ela pode crescer progressivamente e obstruir o vaso onde se originou (trombose). Esses dois caminhos levam à redução total ou parcial do volume sanguíneo local, causando uma queda dos níveis de oxigênio (hipóxia), podendo resultar em um Infarto Agudo do Miocárdio.

Nesse sentido, o exercício físico pode funcionar como uma espécie de gatilho para esses eventos citados, em indivíduos predispostos, pois ele submete o coração à um estresse funcional. No entanto, para se prevenir de situações indesejadas, o caminho não é interromper com o hábito de se exercitar e sim procurar um cardiologista e médico do esporte com título pela sociedade brasileira de medicina do esporte!

Temos na sociedade a premissa de continuar sendo fisicamente ativo, como forma de prevenção de doenças, portanto com segurança e orientação médica, sempre!

Como prevenir?

Estudos indicam que mais de 50% dos pacientes relatam sintomas de alerta antes de algum caso fatal, como dores no peito, perdas de consciência durante o treino ou uma palpitação. De acordo com a American Heart Association, a European Society of Cardiology e o International Olympic Committee, a melhor estratégia de prevenção desses eventos é que o indivíduo busque um profissional qualificado para passar por uma Avaliação Pré-Participação (APP).

A APP consiste em uma investigação por meio de história familiar, idade, hábitos e exames laboratoriais, com o intuito principal de identificar e prevenir o desenvolvimento de doenças cardiovasculares e a morte súbita.

Dessa maneira, com uma Avaliação Pré-Participação, um acompanhamento anual e um programa de treinamento adequado, mais de 90% dos eventos inesperados podem ser prevenidos.

Conclusão: Devemos aprender com o caso Christian Eriksen e vamos aguardar uma nota oficial da equipe médica do jogador elucidando o que de fato ocorreu com o atleta.

Espero que tenham gostado e vamos nos colocar em movimento!

Ficou com alguma dúvida? Entre em contato! Me segue lá no Instagram: @draanapsimoes.

Saiba mais: Diretrizes da OMS sobre atividade física de 2020

Bons treinos, valentes!

Escrito por: Ana Paula Simões e Gustavo Rodrigues Prado: Estudante de Medicina do Centro Universitário de Volta Redonda – UniFOA Contato: @gustavoprado

Dra. Ana Paula Simões
Médica do esporte, ortopedista e traumatologista, professora instrutora e mestre pela Santa Casa de São Paulo, especialista em medicina esportiva e cirurgiã do tornozelo e pé.

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